Estudo da NTT Data mostra que no futuro as interfaces serão líquidas e invisíveis, e que as telas vão ficar para trás

Eli Rodrigues e Evandro Armelin da NTT Data apostam na chegada das interfaces líquidas e invisíveis / Foto: Nick Ellis (Digital Drops)
A NTT Data apresentou a 6ª edição do Future Uncovered no Cubo Itaú, em São Paulo, e disse que no futuro, as interfaces digitais serão líquidas e invisíveis. Segundo a empresa, vivemos em um mundo dominado por IA que está diante de 5 grandes viradas: o avanço das interfaces multimodais, o surgimento desse novo tipo de interface, que levarão a uma redução e eventual abandono das telas que usamos todos os dias.
Além disso, a empresa destacou a transição de SEO para GEO (Generative Engine Optimization), que será cada vez mais necessária pelo chegada do e-commerce M2M (máquina a máquina), feito através de agentes de IA, e também contou que vem usando “clientes sintéticos” para testes e personalização de campanhas.
No evento de lançamento, Eli Rodrigues, Diretor de Digital Experience, e Evandro Armelin, Head de Digital Technology da NTT Data no Brasil, contaram que apesar de vivermos presos nas nossas telas, essa interação está sendo gradualmente substituída por interações mais fluidas e naturais, mas menos visuais.
Mas, como chegamos até esse momento? Hoje, a narrativa digital se tornou comprimida, com um limite de atenção de 15 a 60 segundos. O resultado é que a atenção virou um recurso econômico que precisa ser explorado. Assim, se um conteúdo não cabe em um shorts ou um reel, para o usuário médio, é como se ele não existisse.
Os algoritmos das redes sociais funcionam como máquinas de mineração buscando segundos de atenção dos usuários, que cada vez mais trocam a experiência de viver cada situação pelo simples registro dela. Por causa dessa dinâmica, ficar longe das telas se tornou uma atitude saudável e relaxante.
É muito mais fácil e natural conversar com alguém, ou no caso, com um modelo de IA, do que ficar navegando pela internet. O próprio Google percebeu isso, e lançou recursos como o Modo IA.
O avanço da multimodalidade e o que vem por aí
A primeira transição é a multimodalidade, que já estamos usando na nossa rotina. Já usamos nossa voz para interação, e visão computacional para entender o contexto do ambiente, além da IA para saber qual nossa intenção. Assim, os modelos de IA e assistentes não só enxergam objetos ao nosso redor (ou a nossa tela), mas entendem perfeitamente o contexto nos quais eles se encaixam.
Assim, a tecnologia passa a agir no seu ambiente, a entender qual é a sua intenção e a te responder sem que essa interação precise passar por uma tela, um app ou comando explícito. Isso permite oferecer um nível de personalização que vai muito além das interfaces tradicionais, e pode ser um grande diferencial competitivo no mundo dos negócios.
Só que a multimodalidade é o estágio atual, que vai pavimentar o caminho para interfaces líquidas ou invisíveis, que se moldam em tempo real. Ou seja, ainda vamos chegar a um ponto no qual a interação não precisa de uma UI.
Vamos entrar na era das interfaces líquidas e invisíveis, diz NTT Data

A era das interfaces líquidas e invisíveis / Foto: Nick Ellis (Digital Drops)
Segundo a pesquisa, vivemos olhando para nossas telas, com 7 horas diárias na frente do smartphone, do computador ou da TV. Só que a tendência é que isso seja substituído em breve por novas interfaces, muitas delas customizadas e geradas por IA na hora, especialmente para cada usuário. Ou seja, a NTT Data acredita que estamos entrando na era das interfaces líquidas.
Em uma mudança que já está acontecendo, as interfaces estão se tornando multimodais, ou seja, uma “combinação de texto, voz, visão computacional, contexto ambiental e interpretação da intenção do usuário. Estamos entrando na era da tecnologia ‘invisible by design”, diz a empresa.
Esse movimento de abandono das telas começou com wearables como os Airpods e outros concorrentes, passou para os headsets e óculos inteligentes. O Google Glass pode ter sido um fracasso, mas empresas como a Meta estão oferecendo produtos cada vez mais avançados com recursos de IA e realidade mista.
Interfaces com IA já fazem parte do nosso dia a dia
Atualmente, interfaces com IA, ou geradas por IA, já fazem parte da nossa rotina, e estão cada vez mais presentes em diferentes serviços e produtos. Usando a câmera do seu smartphone ou computador, os assistentes de IA já conseguem “enxergar” e reconhecer objetos e contextos, além de entenderem melhor as nuances da nossa fala.
Assim, eles conseguem entregar respostas em tempo real, com um entendimento de quem é o usuário, o que permite que as empresas ofereçam um nível de personalização que nunca foi possível antes da chegada da IA generativa.
Pesquisa do PayPal mostra que as PMEs brasileiras ainda usam pouco a IA
Antigamente, você fazia uma busca e chegava em um texto que respondia a sua pergunta, mas as novas gerações preferem assistir a um vídeo com a resposta ou solução. Essa mudança também acontece na forma como interagimos, em vez de cliques, abrimos a câmera para demonstrar.
Muitas pessoas já interagem com apps ou sites de compras através de voz ou imagens, e até mesmo bancos e seguradoras já contam com interfaces multimodais em suas operações para identificações de segurança ou realização de vistorias.

Eli Rodrigues, Diretor de Digital Experience da NTT Data no Brasil / Foto: Nick Ellis (Digital Drops)
Também já existem dispositivos como o AI Pin ou o Plaude Note, que registram cada momento dos nossos dias para que esse conteúdo seja acessado por uma IA e ajude o usuário a lembrar de detalhes importantes que podem passar despercebidos na correria diária.
O formato (e produto) definitivo desse tipo de companheiro diário com IA ainda não foi lançado, mas enquanto isso, já estamos usando interfaces multimodais através dos nossos smartphones e wearables.
IA já mudou a forma como fazemos buscas online
Hoje, muitos já usam modelos de IA generativa como o ChatGPT, Claude ou Gemini para fazer buscas ao invés do Google. A gigante de Mountain View sabe disso, e pode decretar a morte de muitos sites de notícias com seus recursos de IA para pesquisa. Enquanto isso, empresas como a Perplexity estão mudando a forma como fazemos pesquisas, com resultados com links e referências de qualidade.
No cenário atual, os comandos, cliques e navegação que até hoje são parte essencial da nossa vida, estão sendo trocados por interações espontâneas, usando linguagem natural. Isso marca uma mudança de paradigma, já que nas últimas décadas, as telas foram o centro da experiência digital.
A NTT Data aposta que em breve veremos o surgimento das chamadas interfaces líquidas. Ao invés de botões fixos, ambientes que se moldam às necessidades do usuário assim que elas se revelam. Serão interfaces personalizadas, quase imperceptíveis, criadas em tempo real, especialmente para a pessoa que está usando e para o ambiente no qual ela se encontra.
A tecnologia tem avançado muito não só em modelos de IA cada vez mais capazes, mas também em áreas como dispositivos wearables, com headsets e óculos inteligentes, fones de ouvido com assistentes de IA e sensores biométricos, e no futuro teremos lentes de contato smart ou até mesmo implantes no cérebro, assim bastará pensar em uma pergunta para ter a resposta.
Se as compras são feitas por máquinas, é preciso investir em GEO
Já é possível criar agentes de IA que podem realizar toda a jornada de compra, tudo a partir de uma simples conversa. Isso nos dá uma amostra de um futuro no qual a comunicação máquina a máquina (M2M) passará a ser o padrão, e não mais uma novidade. Assim, a sua empresa ou o seu produto precisam ser lembrados nos modelos de IA mais acessados, e não mais no Google.
Para Eli Rodrigues, “a discussão já não é sobre se isso vai acontecer, e sim quando. As empresas precisam iniciar a transição de SEO para GEO (Generative Engine Optimization), garantindo que seu conteúdo seja compreendido e sugerido pelas IAs que mediarão a experiência do usuário”.
Setor de TI tem quase metade das vagas de IA, mostra relatório da Gupy
Assim, você vai precisar trabalhar para tornar o seu conteúdo compreensível e recomendável para modelos e plataformas de IA, e não só indexável. É uma mudança de rumo que já está impactando o nosso presente. Plataformas como Perplexity já começam a inserir anúncios dentro de respostas, ou seja, cobrando por resultados.
Assim, o importante daqui em diante não são mais os cliques, mas sim as citações do modelo de IA. Segundo a NTT Data, isso marca o início do pay-to-answer, ou pague para responder.
NTT Data usa clientes sintéticos para customizar campanhas para clientes reais

Evandro Armelin, Head de Digital Technology da NTT Data Brasil / Foto: Nick Ellis (Digital Drops)
Entre as ferramentas que usa para chegar nesses objetivos, a NTT Data usa uma solução com “clientes sintéticos”, ou um Digital Twin de um usuário comum. Assim, é possível simular comportamentos, testar fluxos e personalizar ofertas para criar campanhas realmente customizadas para cada cliente único.
A NTT Data enxerga um grande potencial na criação de ferramentas com interfaces líquidas para bancos, seguradoras e/ou comércio.
As telas dominaram o nosso mundo nos últimos 15 anos, mas seu uso será reduzido de forma gradual. A próxima década provavelmente será lembrada como o momento em que a tecnologia deixou de disputar nossa atenção, e passou a fazer parte do ambiente.