Entrevista: Amanda Momente da WonderSize conta sobre o dataset focado em inclusão
Conversei com Amanda Momente, CEO e fundadora da WonderSize, primeira marca de performance esportiva Plus Size do Brasil, que desenvolveu o Wonder Dataset. um banco de dados inclusivo de moda brasileira, que conta com modelagem, designs, referências, e até decisões criativas. Além do uso por outras marcas, o dataset da marca pode ser usado para treinamento de modelos de IA, com foco na inclusão de corpos gordos.

Amanda Momente da WonderSize / Divulgação
Amanda é designer e AI Fashion Architect, além de especialista em engenharia de dados e comportamento aplicada à moda. Recentemente ela foi um dos destaques do Pop Plus no Memorial da América Latina, e tem compartilhado seus insights com vários veículos de comunicação.
Antes da entrevista em si, vou dar um breve contexto da trajetória de Amanda. da sua marca e da importância do trabalho incansável pela inclusão e democratização da moda para que possa ser usada por mulheres com todos os tipos de corpos, tanto no Brasil como no resto do mundo. Quem preferir, pode pular direto para as ótimas respostas da minha entrevistada de hoje.
Uma breve apresentação da WonderSize
Amanda Momente criou a WonderSize 8 anos atrás por uma questão de necessidade pessoal, já que queria continuar praticando exercícios após a gravidez, mas não conseguia encontrar nas lojas roupas esportivas. Ao longo de sua trajetória, a Wonder ajudou a mudar a realidade do mercado de moda, provendo a inclusão de corpos, com peças das linhas casual e fitness com numeração 42 ao 70.
Indo além, a marca gerou uma mudança comportamental na sociedade, incentivando pessoas a praticarem atividades físicas, o que levou Amanda a se tornar uma verdadeira criadora de tendências. Depois da pandemia, ela percebeu a importância da comunidade, e que a Wonder não vendia apenas roupas, mas criava conexões e amizades entre as clientes.
Isso deu origem a projetos com foco em oferecer experiências únicas para estas mulheres, como um cruzeiro e a “Mansão Wonder”, que acabou sendo o motivo para a criação do dataset. Ao mesmo tempo em que a Mansão Wonder deu a liberdade para que mulheres gordas pudessem usar biquínis sem explicar para ninguém, Amanda notou que o conteúdo gerado pelo evento acabava viralizando para fetiches nas redes sociais.
Dataset quer mudar a forma como as mulheres são categorizadas por modelos de IA
A partir daí, ela começou a estudar inteligência artificial e descobriu que a maior base de dados sobre corpos gordos na internet era ligada a conteúdo adulto ou de doenças, que são as respostas que a pessoa recebe ao fazer uma busca por pessoas gordas em modelos de IA.
Amanda então teve a iniciativa de criar o Wonder Dataset para mudar essa realidade, com a inclusão de corpos gordos vivendo situações do dia a dia, sendo felizes, sem qualquer tipo de viés. Ela aprendeu a programar em Python para ler as fotos e adicionar semânticas, mostrando para os algoritmos que as pessoas gordas existem.
Na entrevista abaixo, Amanda me contou mais sobre a sua jornada autodidata em inteligência artificial, e como tem usado a tecnologia para combater a invisibilidade de corpos gordos nos principais modelos de IA do mundo. Ela também me falou sobre os seus próximos passos, que incluem o lançamento de um livro e um desfile de moda da Wonder.
Amanda, qual a importância da tecnologia para a WonderSize?
A Wonder sempre teve um DNA tecnológico, sempre participou de várias acelerações e nossos produtos também são nanotecnológicos, então as peças ajudam na circulação, performance esportiva, equilíbrio térmico, todas contam com tecnologia e atuam na pele de forma inteligente.
Além disso, temos um storytelling muito incrível, por exemplo, nossa legging Joana D’arc, que é uma legging que te prepara para qualquer batalha, não enrola o cós e não fica transparente. A gente sempre teve uma pegada de branding muito boa, e somos uma marca onde a gente sempre atuou para democratizar a indústria da moda.

Amanda Momente / Divulgação
Imagina, 8 anos atrás, não tinha nenhuma legging, e hoje a gente vê uma movimentação do mercado. Na época em que ia lançar a marca, as pessoas me falavam que “gordo não gosta de ir na academia”, e a minha resposta era sempre “mas ninguém nunca perguntou se ele tinha uma roupa para ir, não é?”.
O ponto principal é que a modelagem da Wonder é plus size, e respeita o corpo da pessoa. Eu sou autodidata na moda, não sou formada em moda, mas acabei me formando pela vida. Conforme o tempo foi passando, eu entendi que a gente gerava uma mudança comportamental na sociedade, que pessoas começaram a fazer atividades físicas por causa da Wonder.
Isso é realmente incrível, você mudou a vida destas mulheres
Foi até diferente para mim conseguir me enxergar como criadora de tendência, vimos muitas marcas copiando o nosso posicionamento. No começo, a gente ficava até com um pouco de raiva, depois a gente vê que isso está dentro de grandes marcas e percebemos o quanto a marca virou criadora de tendência.
Depois da pandemia a gente se reconectou junto com as clientes e foi reconstruindo a marca com a comunidade, que ficou muito forte. E foi aí eu já percebi que a Wonder já era diferente, sabe? Eu sempre falava que a gente não vende só roupa, é muito mais que isso…
Se você um dia vier em um evento Pop Plus, ou um dia encontrar nossa comunidade, as pessoas falam: “mas quanto tempo vocês se conheceram, que vocês são tão amigas?” Porque a gente é aquela amiga gorda que a gente nunca teve no recreio. Então, as pessoas realmente se conectam, eu procuro sempre fazer o que elas pedem, tento fazer tudo o que a comunidade participa.
Com certeza! Você pode me contar mais sobre a Mansão Wonder?
No início do ano, tive um despertar muito grande, porque fizemos a Mansão Wonder, unindo 30 mulheres em uma mansão na praia, e uma delas me disse que fazia 15 anos que não entrava no mar, e 10 anos na piscina. Aquilo me arrepiou, eu falei que a gente vende roupa às vezes, porque eu acho que o que a gente faz é muito maior.
Quem estava na Mansão Wonder ficou com a cabeça caótica depois de um dia, pois era um monte de mulher gorda podendo usar biquíni sem ter que se explicar, sem falar nada. E eu fiquei analisando isso com o comportamento das pessoas.
Logo em seguida a gente fez um cruzeiro com as clientes e eu fiquei pensando: “por que elas gastam dinheiro para viajar com a gente?” e me perguntando, “por qual motivo elas vestem a Wonder?” Fiquei refletindo, porque a Wonder é uma marca de moda, eu sempre coloquei uma experiência fashion, eu sempre dei a oportunidade delas se enxergarem como a gente enxerga elas.
E como a Mansão Wonder deu origem ao dataset da WonderSize?
Quando eu comecei a soltar o material da Mansão Wonder, que foram mais de 12 mil fotos em apenas 2 dias, infelizmente vi que quatro redes sociais diferentes viralizaram o conteúdo para fetiche, tipo uma coisa meio adultização, igual Felca.
Esse tipo de uso percorre muito mais rápido, por mais que a minha comunidade seja forte, eu percebi que, nas quatro redes sociais, o conteúdo viralizou para esse lado. Foi aí que comecei a estudar, já estava de olho na inteligência artificial, economizando tempo, mas comecei a estudar e vi que a maior base de dados sobre o corpo de pessoas gordas é conteúdo adulto ou sobre doenças.
E eu já usava no meu dia a dia IA, até no próprio reality da Wonder, que eu fui criando junto com o IA, num concurso que participei do Santander X AI, que a gente acabou ganhando, eu fiquei atrás disso de porque como que eu poderia acrescentar, porque eu entendi que não adianta eu ficar fazendo um ótimo trabalho, ter fotos incríveis, editoriais incríveis, fazer uma mansão, se a hora que eu vou postar esse conteúdo, o meu esforço, ele sempre puxado para trás de alguma forma.
É realmente um absurdo isso
Pois é, não basta ser uma empresa e já ter saído em 48 países, etc. Existe hoje, ainda mais entrando nesta era na qual a gente vê pessoas sendo educadas por IA, e que ela vai transmitir ainda como se a gente não existisse. Eu uso IA, e esse viés me atrapalha hoje.
Eu estava fazendo um vídeo agora, por exemplo, para gerar IA, ele não gera uma mulher gorda de jeito nenhum, ele gera homem. Mulher gorda ele não gera, por quê? Porque para ele isso é atrelado a diretrizes ali. Então, eu fico imaginando, que lugar que colocaram a gente, sabe?
No início, quando eu pensei no dataset, eu confesso que achei que era loucura, porque eu também sou autodidata nessa parte de IA, mas acabei usando muito. Meu hiperfoco e o TDAH me ajudaram nisso. E eu caí nesse lugar, que eu falei: “eu vou criar um banco de dados com essas fotos”.
Foi aí que você aprendeu a programar em Python?
Sim, eu aprendi a programar sozinha em Python para criar o dataset. Olha que loucura! E eu criei uma programação que lia as fotos, sozinhas assim, e colocava semânticas simples, como: “gorda vivendo”, “uma mulher gorda andando feliz”, “uma mulher gorda ali, na praia.”
Já que não existe esse dado na internet pública, porque aí junta com a imprensa não coloca muito gordo no protagonismo. Então não existem muitas mulheres gordas ganhando prêmios, não existe, entendeu? “Ah, mas você vê fotos de pessoas gordas, mas imagina, o maior banco de dados é qual? É o que a gente é inválida, nesse sentido.
E aí eu fiquei chocada que a gente não existia na IA, e isso me fez perceber que então a gente não existem muitos contextos, e aí eu resolvi criar esse dataset para ver se a gente consegue… Juntou com o fato de que não quero mais ficar explicando a minha existência, há 8 anos eu vejo com dados, com muito, com histórico positivo, eu sendo subestimada nesse sentido
Então eu falei: “não, acho que tenho um histórico suficiente para poder pegar e soltar isso como referência, ainda mais que a gente já saiu na WGSN (Worth Global Style Network)”. Aí eu criei esse dataset, me especializei em IA e arquitetura de dados, porque eu quero que gente gorda exista para os algoritmos. É uma loucura, mas é isso.
Qual você diria que foi o seu maior desafio para a criação do dataset?
Isso, mas também comecei a ver, que, no mercado plus size, não existem dados muito consolidados. Existem poucos, mas não é algo muito publicado. Então eu tive que treinar a IA para ela conseguir me dar parâmetros de dados, então quando alguém vai pesquisar, eu mesmo direto dou entrevistas para o mundo inteiro de TCC,. Direto mesmo. Porque as pessoas não encontram profissionais, para falar sobre isso, sobre design e tal.
Então, a gente resolveu transformar a WonderSize em um banco de dados públicos, inclusive com as nossas modelagens e tudo, para que a gente tenha um alcance global. As nossas modelagens também estão em arquivo de acesso global, para que as pessoas tenham onde aprender, entendeu?
Porque nem nas faculdades existe isso, aí juntou que no ano passado eu fiz uma ação para o Rio Grande do Sul, e as faculdades não sabiam produzir roupa para gente gorda, ou seja, você vê que nem os estudantes de moda sabem.
Entendi, o dataset tem um grande potencial educacional
Sim. A ideia era a gente não depender da aprovação realmente, da sociedade, já que a gente não tem, de grandes líderes e portais de moda e conseguir ter acesso à informação na hora que a gente quisesse. O dataset tem uma versão inicial, de pré-lançamento do livro que vamos publicar, porque é importante consolidar em papel também.
Eu acredito que, na hora em que a gente consolidar, isso vai virar uma apostila de estudo para as faculdades. Tudo para, de fato, pararem de falar que a gente não existe, porque juro, parece brincadeira ou exagero, mas eu me dei conta de quanto tempo nas reuniões eu ficava explicando a nossa existência.
Eu tive a oportunidade de trabalhar com meu marido em um outro projeto, voltado para um público de luxo, com pessoas mais exigentes. As pessoas aceitam tudo, porque não tem gente gorda. Eu tenho todos os dados positivos que provam o que eu estou falando, e mesmo assim eu sou questionada, a pessoa fala: “não, mas não é isso”, mas eu falo, “gente, está aqui, eu tenho os dados das clientes comprando, monetizando, sabe?”
Então eu percebi que, se o meu propósito era democratizar a indústria da moda, eu preciso dar informação para elas. E é isso que eu estou fazendo hoje.
Como você vê o potencial do dataset da WonderSize para ajudar nessa inclusão?
Antes eu via o dataset da Wonder, mais para tirar dúvidas, você ia até lá e fazia sua pergunta, mas hoje você pode mandar uma mensagem, ele vai lá explicar como eu criaria essa peça, como se fosse uma extensão do meu cérebro. A gente já licencia modelagens e aí eu, com toda essa demanda que vinha, eu falei: “não, gente, eu não vou conseguir atender todo mundo e as pessoas podem fazer”.
Então eu criei o dataset para isso, e quando eu falo em democratizar, eu acredito que eu tenho que disponibilizar isso de graça. Porém, eu vejo também oportunidades dele como modelo preditivo para as marcas usarem na hora de fazer um design.
Porque, dentro disso, a gente tem 8 conceitos de design da Wonder, que a gente consolidou a Wonder como uma marca que é “design de sensações”. Então, as nossas peças, quando você veste, você tem sensações humanas que você nunca teve, na pessoa gorda.
Proporcionar isto é realmente sensacional
Um exemplo é, elas vestem o macacão Ivone, que ele chama Ivone, porque você pode sambar e nada sai do lugar. Então as nossas clientes vestem e falam: “nossa, eu tô me sentindo uma grande gostosa”.
Dentro dessas minhas reflexões, desde o início do ano, eu entendi que os nossos produtos geram sensações, e isso vem dentro do dataset, com comprovações também que eu fiz a partir de pesquisas, e isso vai estar dentro do livro, de pilares de design, tanto para designers quanto para empresas, enfim, é uma coisa que a gente vai explorar depois e ver como vai ser.

Amanda Momente / Divulgação
Eu confesso que estão sendo novas descobertas, na hora que eu vi que ele pode ser um modelo preditivo para grandes marcas, eu falei: “não acredito”. E é engraçado que eu percebi que minha maior destreza e diferencial, entre um programador normal e eu, é eu eu entendo de comportamento humano.
Então, eu crio um um cérebro de um robô pensando em uma pessoa, porque eu entendo um pouco como ela se comporta, então ela existe através de viés inconsciente e através de sentimentos que todas as pessoas têm em comum. Eu fui fazendo isso, para conseguir ver se eu consigo realmente trazer essa consciência para os próximos designers de uma forma, que eles entendam que a moda tem que ser feita para as pessoas, não ao contrário, não é? A gente não é mais um cabide, que faz a roupa e pronto, não.
Você acha que o dataset pode influenciar os resultados dos modelos de IA a médio ou longo prazo?
A médio prazo, pois as pessoas já utilizam muito a IA. Por coincidência ou não, eu escrevo vários artigos, e também mapeio tudo que sai do universo plus size, e comecei a ver artigos escritos que são muito parecidos com os meus. Porque o modelo deve buscar o que tem, obviamente, não é?
Então, eu vejo que, na minha concepção, né, como cool hunter, futurista, eu vejo que hoje, você pode ser quem você quiser ser, desde que você coloque o máximo de dados públicos na internet. Quando eu entendi que eu não dependia de um líder gordofóbico para eu me consolidar, eu entendi que eu posso subir a minha própria base de dados sem depender de ninguém e ter a minha autoridade, se eu fizer isso de forma inteligente.
Então, eu parei de questionar a indústria, eu ocupei o meu lugar de direito, com dados, que eu posso provar. Assim eu não preciso mais ficar me justificando.
Se justificando como pessoa?
Sim, porque o mercado, a indústria da moda, nessa parte de diversidade, ela é tão problemática que toda vez que eu ia falar alguma coisa, eu escrever alguma coisa, sempre parece que estou militando, de tantos problemas que tem.
E aí, toda vez, em qualquer coisa que você vai fazer, é muito mais difícil. Então, eu quis parar, sair desse lugar, e começar.. Já tem um tempo que eu já estou fazendo isso, começar a ir para soluções, mas a gente é sempre tido como gorda raivosa.
Então, eu acabei e falei assim: “agora eu vou falar que eu sou uma gorda nerd, não raivosa”. Porque ninguém vai poder falar que eu não sou, entendeu? Então, eu comecei a soltar esse banco de dados e estou muito animada, pois é uma carreira que jamais imaginei, e eu acho muito promissor, eu acho que qualquer designer hoje tem que programar. Tem que saber programar.
Acho que todo mundo na vida vai ter que começar a programar para conseguir extrair, e muito mais do que isso, para ganhar tempo, não é? Acho que a IA veio para mim para ganhar tempo e, enfim, consolidar ainda mais.
As ferramentas de vibe coding são ótimas, né?
Meu Deus, eu estou amando. E aí eu já vi que vibe coding virou meme, não é? Eu falei: “gente, eu mal cheguei na programação e já virei meme de novo”. Só que a minha teoria é, eu lembro que uma época eu queria aprender a fazer desenho 3D, sabe? E aí, eu lembro quando as pessoas iam me explicar, elas não conseguiam. Eu tenho TDAH, então eu já tenho dificuldade no aprendizado, do jeito que as pessoas explicam.
E aí eu percebi que a inteligência artificial me dá liberdade e organiza todos os meus pensamentos, que são multidimensionais. Então, para você ter uma ideia, eu rastreei como eu penso na hora de criar alguma coisa. Eu tenho 30 leis na minha cabeça que eu não sabia e a hora que eu falei: “é isso mesmo, por isso que é tão bagunçado na hora de criar um agente.” Por quê? Porque é como a minha cabeça funciona. Eu vejo em vários aspectos.
Até fiz um post no LinkedIn e convido você para ler, que ficou muito legal. É, então, é aí eu vi como, eu que aprendi a desenhar agora, e eu costumo dizer que meu desenho é artístico, para não dizer que é feio, o que que eu fazia? Eu comecei a pegar, fazer o desenho com giz de cera, você imagina como ele sai.
Eu tiro a foto, transformo num croqui, ele fica um croqui 2D lindo, maravilhoso, frente e costas, do jeito que eu desenhei, como eu queria que ele ficasse, mas na minha cabeça ele estava assim, mas no desenho ele era outra coisa. Depois, ele transforma tudo em 3D. Imagina, eu paguei cursos para fazer, que eu não consegui, mas eu fiz tudo com a IA.
Gosto desse uso da IA para ajudar a organizar as coisas ou aprimorar rascunhos
Sim. Ela me deu uma liberdade para eu conseguir materializar o que estava na minha cabeça, absurda, e não só isso, eu acabei registrando até uma NFT sozinha, que há anos eu tentei fazer um curso, mas não consegui acabar, porque eram programadores que davam, e que deixavam tudo muito difícil.
Então, a IA, para mim, principalmente como autodidata, foi uma liberdade de aprender. As pessoas falam que eu sou meio frita hoje, mas eu me sinto mais inteligente, porque eu não não sou uma pessoa que eu vou lá e pergunto qualquer coisa, eu dou muito contexto, eu extraio o que eu quero. Então eu leio muito, o tempo inteiro leio e faço comparações, eu sempre estou muito bem informada.
Comecei a fazer muito isso depois que fiz um curso e vi que a IA é como uma assistente PhD, se você souber extrair tudo dela. Eu falei: “eu tenho uma secretária PhD, era a melhor coisa que eu precisava”. E aí eu deixo lá hoje, quatro robôs trabalhando e vou fazer outra coisa.
Amanda, eu gosto muito da sua empolgação com a IA
Eu estou viciada, eu falo com empolgação. Sabe aquele meme “eu passo tantas horas querendo falar da Regina. Você lembra desse filme, não é?* E eu torcendo para as outras horas as pessoas falarem de IA. Eu estou nesse meme.
* Amanda citou o meme “eu estava obcecada passava 80% do meu tempo falando sobre a Regina e nos outros 20% eu torcia pra que alguém falasse dela para que pudesse falar dela mais um pouco”, um trecho do filme “Meninas Malvadas” de 2004, com Lindsay Lohan e Rachel McAdams.
É muito legar ver que você luta para resolver os problemas, como fez com o dataset da WonderSize
Eu não vou dizer que que eu não fiquei revoltada, eu fiquei, tá? Sabe por que que eu fiquei? Porque eu estou há 8 anos no mercado. Eu fiz aquele final de semana, eu filmei, é um reality, eu posso mandar depois para você assistir, tem lá no YouTube, são três episódios de meia hora, é muito engraçado, porque tudo deu errado, mas deu tudo certo e saiu todo esse material.
E o material está maravilhoso, mas na hora que eu vi aquilo, as pessoas chegavam no meu vídeo, que era simplesmente uma pessoa desfilando. O vídeo era uma gorda, desfilando de fitness. Nada a ver, na praia, não tinha nada. É, hora que eu via as pessoas chegando nesse vídeo de antes, o vídeo anterior delas no YouTube rastreado eram coisas estranhas.
E também é um gasto do seu tempo, não é?
Eu sou heavy user assim na rede social, e muitas das coisas que eu faço literalmente na unha, eu coloco tag por tag de SEO, entendeu? E aí na hora que eu vi isso acontecendo eu vi o meu tempo, teve um um nesse carnaval, eu passei ele postando 700 fotos no no Pinterest e na hora que eu vi que ele viralizou mais para fetiche, eu fiquei assim: “não é possível que o meu trabalho, que eu virei uma empresa de conteúdo adulto”.
Eu também estou cansada de falar isso, então resolvi fazer eles me conhecerem como eu, porque eu consigo fazer isso sozinha. Mas, só fui me dar conta da grandiosidade do que eu estava fazendo agora, porque até então só tava eu, uma grande curiosa, aí que eu entendi a profundidade que eu tinha entrado, na construção de base de dados comportamental. Olha que loucura!
Você disse que tem robôs para te ajudar nas tarefas, pode me contar mais sobre estes agentes?
Eu entendi como você cria um modelo preditivo, então isso, você replica para qualquer coisa. Eu fico falando para as meninas, eu falo: “gente, eu vou criar um robô, tal, tal, tal”. Ontem eu falei com uma amiga que me falou assim: “eu queria um robô de tal coisa”, eu disse: “tenho esse robô pronto, você acredita?”.
E não é qualquer um, não, é com documentação e pesquisas de Harvard que eu criei, é um robô que ela precisava. Ela é psicóloga de primeiro acolhimento, às vezes os clientes ligam de madrugada e precisam aprender a fazerem técnicas de respiração, eu tenho um robô exatamente para isso.
Aí eu comecei a ver que eu tenho um monte de robô pronto que eu criei mais de 50 multiagentes, eu fiquei viciada em fazer isso, criei vários especialistas assim, porque como se fosse uma equipe muito grande que eu tenho, que é especialista no tema. E aí eu crio até, já criei até um professor de matemática pro meu filho, que tem TDAH também, e ninguém consegue explicar as coisas direito para ele. Então, todo agente que você imaginar, eu já devo ter feito.
Como você vê o uso da IA entre a sua comunidade?
Antes, eu achava que todo mundo tava usando bastante, e me sentia muito limitada ainda. E aí, conforme eu fui conversando com as pessoas, as pessoas me pediam para fazer reuniões comigo, para que eu ensinasse o que eu estava fazendo. Até que eu reuni um um grupo de mulheres CEOs que representam um dos maiores VGVs do Brasil, aí eu pensei, “gente, eu tenho um grupo, uma comunidade de IA com CEOs”.
Aí eu fui me dando conta disso, sabe? Porque eu fui aprendendo sozinha, então só agora eu entendi a grandiosidade disso, aonde isso pode me levar. Aí eu comecei a de verdade, mas eu percebi que ainda bem que comecei assim, fiquei estudando, eu achei super difícil e com a com a IA eu acho incrível. O vibe coding é muito legal. Sim, eu estou amando.
Quais são os seus próximos passos?
A Wonder era uma marca de varejo online, a gente sempre foi nativa digital, mas agora a gente está mudando a nossa operação, então a gente está virando uma base um banco de dados públicos, para a comunidade e quem quiser acessar globalmente, e depois disso, a gente vai ter algumas peças e vou lançar o livro físico em fevereiro.
Em maio, vamos fazer o desfile das modelagens universais plus size, e durante este processo, a gente vai focar em criar novos conceitos de design. Junto com dados e conteúdos e previsões de tendência, onde a gente se consolidou, como uma marca criadora de tendência, design, previsão, etc.
Amanda, quais são as ferramentas de IA que você anda usando?
Eu uso para absolutamente tudo, todas as ferramentas que você imaginar. Agora eu estou apaixonada pelo Meta AI, do jeito que ele cria as imagens, eu não sei se você já usou. Também sou heavy user do ChatGPT, porque eu já estou há muitos anos usando ele, então ele me conhece já. Então eu não consigo mudar, apesar de migrar muito para outras coisas.
Eu também estou apaixonada pelo Antigravity, eu não sei se você já usou, no Gemini agora, que ele cria…
Esse eu não usei ainda, é bom?
Você vai amar. Elé pesado, mas ele é incrível. Se você vai criar site ou alguma coisa assim, ele cria camadas e camadas de programação e você dá autorização e ele cria tudo sozinho. Ele é maravilhoso, é meio esquisito de usar no começo, mas você coloca lá, e agora eu consigo decodificar qualquer coisa, posso pegar, sei lá, uma foto aqui, nossa, eu decodifico a foto, porque você não precisa saber fazer, entendeu?
Então agora eu fico decodificando qualquer coisa para fazer um banco de dados, assim, e porquê a IA que uso assim todo dia o tempo inteiro é uso por voz. Aprendi a usar por voz também, porque como eu fiquei viciada em programar, eu passo muito tempo sentada, então agora tenho uma esteira, fico programando por voz.
Fico programando e organizando também, por exemplo, o ChatGPT, eu ligo e fico organizando as minhas demandas na hora que eu não estou no computador. Ah, “começa a fazer uma lista aí”, ele faz, e na hora que eu chego no computador, eu coloco o modo agente para trabalhar, então ele faz as apresentações todas sozinho. Então, o meu uso de IA é assim, há 2 anos que eu uso muito.
Você usa essas ferramentas com foco, né?
E eu usava todos, o Gemini, eu uso vários e assim, o que também saí da paranoia? Eu saí da paranoia de querer usar tudo ao mesmo tempo. Eu tento ver qual modelo é melhor para mim hoje. Aí eu uso essa ferramenta e aí toda vez que eu vejo uma, eu vou lá e testo se tem alguma coisa que eu estou precisando.
Se eu não estou precisando, nada de contabilidade, eu não vou ficar usando, entendeu? Porque você demora para aprender, e é investimento de tempo também, não é? E aí é como conversar com um robô. Mas eu estou adorando, acho que eu trabalho, basicamente, grande parte do meu tempo com o IA hoje.
Se pudesse dar um conselho para quem está começando em moda ou tecnologia, qual seria?
Olha, o meu conselho é você ser muito fiel a si mesma, porque você tem duas opções, ou você tenta se encaixar na sociedade, o que vai dar trabalho, e você vai se frustrar porque você não vai se conseguir, você vai se minar internamente, ou ser você mesma.
Seja você mesma e você vai pelo menos decepcionar só a sociedade, que que não tem nada a ver com a sua vida e vai estar mais feliz consigo mesmo. Porque, em todos os momentos, eu nunca achei que eu estaria dando entrevistas falando sobre isso, porque as pessoas falavam que eu era louca, que eu não era deste mundo, que eu não sei o quê, que não tem nada a ver, etc.
Desde o dia que eu lancei a WonderSize, as pessoas falam isso para mim. É, “porque gordo não quer roupa para academia, gordo não quer não sei o quê lá, gordo, isso ou aquilo”. E está aí, grandes marcas copiando.
Então, a maior vantagem que você tem na vida, enquanto ser humano, empresário, é ser você mesmo e não ter vergonha das oportunidades que você tem, falar a hora que você quer e fazer as coisas, e quando as pessoas te chamarem de louca, saber que você tá no caminho certo, porque sempre deu certo para mim quando as pessoas estavam falando isso.
Parabéns por estar mudando o mundo, imagem por imagem, sem perder a calma
Só que é difícil, a gente muda na irritação. Eu mudei assim com eu juro para você, com muita raiva. Na hora que eu me dei conta da camada do que que eu enfrentava, então não era só eu fazer um post, sabe? Eu tenho um algoritmo contra mim, aliás ele já é contra a gente por natureza, não é? Vamos combinar. Os algoritmos já são contra a gente.
Aí eu falei assim, “eu não vou ficar fazendo isso porque eu porque eu já tive coisas que eu impulsionei, paguei, coloquei nas configurações que era para exibir só para mulheres, e recebi lavash de hate de homem. Não tem um comentário de mulher, por quê? Porque é uma coisa que a gente não consegue ir contra, sabe? Então tem que tem que ser tem que ser louca mesmo para ficar fazendo essas coisas.
Tem que entender como decodificar a mente gordofóbica do ser humano. É basicamente isso que eu estou querendo fazer. E, tipo assim, fazer as pessoas mudarem o padrão comportamental delas, de como elas pensam que uma pessoa gorda é fracassada, ela entendendo, que se ela digitar “gorda” na internet e aparecer uma gorda feliz, aí ela vai ver que a gorda não é fracassada.
É para gerar uma mudança comportamental na sociedade. Eu não sei se sou muito otimista, mas é o que eu estou tentando fazer, sabe? Tipo a Miss que quer a paz mundial, eu quero também, mas nesse formato.
Muito obrigado por contar tudo sobre o dataset da WonderSize com o Digital Drops, Amanda!
Muito obrigada pela oportunidade. É muito importante, ter veículos como o seu também falando sobre isso, porque é assim que a gente vai aparecer, porque a mídia, ela tem total importância nesse lugar de construir essa base de dados.
Eu fico muito feliz de estar podendo construir isso com inteligência artificial, e também de ser uma das pioneiras e usar a IA no mercado fashion. Eu confesso que também é uma surpresa para mim, me tornei uma nerd e uma arquiteta de dados comportamental. E totalmente autodidata.
Obrigado novamente, e pode voltar sempre que quiser!
Combinado. Vamos trocar ideia sobre vibe coding, já que a gente virou meme (risos).